Piratas transformam Anhangüera em recordista em roubo de cargas

15/12/2010

Fonte : O Liberal
Bargas Filho

A Rodovia Anhangüera é uma das recordistas em roubo de cargas no Estado de São Paulo, principalmente no trecho entre Campinas e Limeira, onde estão localizados Sumaré, Nova Odessa e Americana, três dos cinco municípios da RPT (Região do Pólo Têxtil). De janeiro a setembro deste ano, ocorreram 134 ataques de bandidos, conhecidos como “piratas do asfalto”. Ou seja, em média, 13 roubos por mês na Anhangüera, rodovia que ocupa a terceira colocação no Estado em roubos de carga. A primeira na preferência das gangues é a rodovia federal Régis Bitencourt com 239 roubos de janeiro a setembro deste ano, em segundo lugar está a Dutra, com 180 ações dos “piratas”. Os dados são do Setcesp (Sindicato das empresas de Transportes de Carga de São Paulo). Neste ano, os roubos de carga renderam um prejuízo de R$ 207,8 milhões.

Nas rodovias do Estado, de janeiro a setembro deste ano ocorreram 1.128 roubos. A Rodovia dos Bandeirantes, que também “pega” três municípios da RPT (Hortolândia, Sumaré e Santa Bárbara d’Oeste), registrou nos dez meses de 2010 um total de 78 roubos de cargas.

Mas o número é bem maior, somadas as ações ocorridas em áreas urbanas. Em todo o Estado, nos dez primeiros meses deste ano ocorreram 5.198 ocorrências de roubos de carga, sendo o mês de março o recordista com 671 ações. No Interior do Estado, 504 roubos, em rodovias 1.128, na Capital paulista 2.650 e nos municípios da Grande São Paulo ocorreram 916 ataques das quadrilhas.

O levantamento mostra que os dias de maior ação dos “piratas” foram a quarta-feira, com um total de 1.94 roubos e a quinta-feira com 1.087. Os “piratas” não gostam de “trabalhar” nos finais de semana. Fizeram 114 roubos nos domingos e 321 nos sábados, no período de dez meses. Nas segundas-feiras, 760; nas terças, 999; e, nas sexta, 823.

Os produtos alimentícios são os mais visados pelos bandidos. Em 2010, até setembro, foram roubadas 1.348 cargas de alimentos. Os eletroeletrônicos estão em segundo lugar com 721 roubos, ocorreram 392 roubos de produtos farmacêuticos, 272 cargas de produtos têxteis, 251 de cigarros, 275 de produtos metalúrgicos e 234 de bebidas. São os itens que lideram o ranking de preferência dos bandidos,

As Polícias Civil e Militar não divulgam estatísticas sobre o roubo de carga nas cidades de Americana, Sumaré, Santa Bárbara d’Oeste, Nova Odessa e Hortolândia, que integram a RPT. Porém, Sumaré é um dos municípios mais visados pelos ladrões conforme registros policiais. Nos últimos dez dias, pelo menos três roubos de carga ocorreram no município. Os dois mais recentes renderam quase R$ 200 mil. Foi levada, nesta semana, uma carga de refrigeradores domésticos, avaliados em R$ 190 mil, e dez toneladas de açúcar avaliadas em R$ 36 mil.

Além de agir nas estradas, os “piratas” atacam também nas áreas urbanas. No dia 11 de agosto, por exemplo, um grupo de assaltantes rendeu o motorista Dionísio Donizete Miranda, de 44 anos, e o ajudante Erivaldo Miguel da Silva, de 37, no condomínio residencial Portal Bordon, em Sumaré. Ladrões levaram uma carga de R$ 27 mil em gêneros alimentícios que estavam em um caminhão Mercedes Benz, ano 20005, branco. Os dois foram levados como reféns em um Kadett e deixados no quilômetro 89 da Rodovia Anhangüera, na região de Valinhos. A investigação das quadrilhas de “piratas do asfalto” é centralizada, na RPT, pela DIG (Delegacia de Investigações Gerais) de Americana. Em 2010, porém, foram poucos os esclarecimentos desse tipo de crime e as prisões de ladrões de cargas. Nas rodovias, o trabalho de combate direto aos bandidos é atribuição da Polícia Militar Rodoviária do Estado.

“O receptador é a raiz do roubo de carga”

Região – O coronel da reserva Paulo Roberto de Souza, assessor de segurança do Setcesp (Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas de São Paulo), um estudioso das ações das quadrilhas especializadas em roubos de cargas, conhecidas como “piratas do asfalto”, defende “o trabalho de repressão e investigação para neutralizar o receptador”. Ele defende uma ação mais efetiva das Policias Civil e Militar. “Não há uma estrutura organizada por parte do Estado para reprimir esse tipo de crime. A receptação corre solta é uma poderosa força motriz que faz com que o roubo de cargas prospere”, disse Souza em entrevista ao portal Transporta Brasil. “O receptador é a raiz de todo o problema do roubo de cargas”, afirma.

“É mais fácil conseguir dinheiro com um roubo em uma situação em que se tem um motorista, muitas vezes sozinho, levando uma carga de alto valor, raramente escoltado. Ficou mais fácil fazer a abordagem e, na medida em que se configurou o comércio paralelo e a receptação, a carga virou um bom negócio”, avalia o especialista em segurança. Souza insiste na repressão á aquele que compra a carga roubada. “O que move o receptador é o lucro fácil. Ele adquire a mercadoria com irregularidade de origem, e, por meio de uma falsificação de documentos fiscais, mistura esses produtos com produtos de origem legal. E consegue excelentes lucros”, diz.

O assessor de segurança do Setcesp sugeriu “o perdimento dos bens” como forma de punir o receptador. “É uma ferramenta importante, se existisse”. Segundo Souza, o crime de receptação é considerado de gravidade leve, com pena que varia de um a três anos de prisão. O roubo de carga “virou um bom negócio”, diz.

Souza explicou que existem ações das forças de segurança, porém, “as policiais trabalham isoladamente”. Segundo o especialista, não existe um trabalho conjunto, não existe um sistema nacional de combate ao roubo de cargas. “O transportador toma todas as medidas preventivas, no gerenciamento de riscos, e, até por uma questão de sobrevivência, tem feito sua parte. Mas, a raiz do problema é que do lado de lá, na repressão, a resposta não tem sido à altura”.

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